Ele estava em casa indeciso entre um sono que o consumia e uma vontade de decidir para onde iria. A tv ligada aleatóriamente em um canal que ninguém assistiria incomodava sua concentração. Era uma briga entre duas facções do seu cérebro: a rebelde e a ociosa.
Decidiu não decidir. Levantou-se com muito esforço (não físico, mas mental pra se desipnotizar da tv) e foi até a cozinha, pois em ambos os casos precisaria comer algo. A memória não lhe era mais fiel, não sabia se foi após a mandioquinha - que estava boa - ou antes das ervilhas - um pouco duras - que a idéia tinha lhe ocorrido. Sabia apenas que aquela tinha sido a decisão que mudaria sua vida.
Riu-se rapidamente, o que transpareceu foi um leva sorriso escapando no canto da boca. Isso sem dúvida tirava todo o glamur de situações como essa: nos filmes as pessoas estão sempre em profunda meditação ou empenhadas quando ocorrem as idéia geniais. Com ele foi somente um estupor de fome e sono. E foi tão insólito que demorou uma semana para ele acreditar em sí mesmo.
Naquele momento, alí na cozinha, sozinho, ele decidiu que se livraria de tudo - e mais, de todos também - que lhe prendiam àquela existência que ele não desejava. Não era apenas uma questão de um emprego que a vida lhe deu, nem da máscara que, de alguma maneira, se formou em sua vida, mas sim a idéia insuportável que ele havia abandonado o caminho que havia sonhado.
A partir daquele momento, na verdade uma semana depois, ele começou a se desfazer de tudo que o prendia àquele meio. Sem dúvida não foi um caminho fácil. Ele estava de diversas formas ligado à tudo aquilo e, acima de tudo, acomodado e em alguns momentos mesmo feliz. Não era, entretanto, nem perto de seu sonho. "O ser humano tem uma capacidade imensa de se acomodar", pensou. Lutaria contra isso também.
Aos poucos deixou seu trabalho, seu bairro, muitos dos amigos - companheiros de trabalho na verdade, não havia mais ligação do que essa. As primeiras coisas que teve que abrir mão foram as mais duras. Depois foi ficando cada vez mais fácil.
A nova vida não foi fácil - pois muitas vezes pensamos que ao sair de nossa vida infeliz tudo ficará bom de repente - mas o tanto de prazer que ele obtinha de sua nova vida era infinitamente maior. E era isso que ele buscava.
E agora, olhando tudo em retrospecto, ele ficou feliz com sua vida. O tempo que ele perdeu não lhe parecia mais algo de ruim, mas uma maneira diferente de aprendizado. A vida havia sido generosa com ele no fim das contas e era isso que importava.
E nesse momento de meditação e mergulhado em lembranças, Ah!, ele se lembrou subitamente: foi depois da mandioquinha.
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Um comentário:
clap clap clap!
adoro essas coisas ;)
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