Sempre tive um pai magro. E isso sempre foi bom. Ele sempre gostou de comer e íamos repetidas vezes a restaurantes e eu comia muitas coisas boa. Tinha minha avó - mãe de meu pai magro - também que sempre cozinhou maravilhas. Sempre achei a comida dela melhor do que a da maioria dos restaurantes.
Foi quando conheci meu pai gordo. Veja, gordo é uma metáfora para o espírito. Meu pai gordo não gostava de comer: para ele comer era um estilo de vida. Muito da sua vida se dava a cerca disso.
Meu pai gordo também gostava de ir a restaurantes, mas tinha uma habilidade natural para a culinária. Não apenas o preparo dos pratos, mas fundamentalmente a mistura dos ingredientes - mesmo os mais simples. Meu pai gordo era um alquimista gastrônomo.
Foi mesmo nos primeiros dias com meu pai gordo que eu percebi que muito dos gosto da minha infância não serviam mais de parâmetro. Muitos de repente só continuavam na lembrança como referências à infância, não mais à comida.
As refeições na casa do meu pai gordo eram longas e divididas em várias sessões de petiscos, entradas, pratos e muitas sobremesas, café e licores. Eram uma fonte incrivelmente longa de prazer antes inimaginável pra mim. E extremamente requintados (mas não esnobes) e abundantes. Ele conhecia os melhores fornecedores de toda e qualquer iguaria, e eles lhe chamavam pelo nome. Já havia provado de tudo e parecia que pra cada um dos mais exóticos temperos e carnes e frutas e queijos e tudo mais, ele conhecia as diferenças entre os diferentes produtores ou fornecedores.
Meu pai gordo sabia viver a vida. Mesmo meu pai magro, no encontros dos dois, pode logo sentir que havia sido vencido nesse campo. Se todas essas armas não fossem suficientes, meu pai gordo havia escolhido a dedo sua esposa. Ela compartilhava de seus gostos e possuía uma habilidade fora do comum para preparar os mais variados quitutes e acepipes.
Adega sempre bem guarnecida, geladeira sempre cheia e dispensa sempre com algum item novo que lhe chamara a atenção guardado para algum momento especial. A casa de meu pai gordo sempre foi o paraíso como só Bacco poderia sonhar.
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Um comentário:
Gostei muito dessa metáfora...
Bom, eu pedi ao Bruno que nos apresentasse, uma vez que convivemos juntos no DD, mas sabe como é o nosso amigo....
Enfim... cá estou ! Sou Gullveigg, queria dizer que aprecio muito seus poemas.
Nos falamos por aí.
Gull
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